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Conciliando o papel de médico com o papel de gestor.

Escrito por Dr. Felipe Costa, Cirurgião Vascular e Endovascular.

O médico é um profissional que cursa cerca de dez a doze anos de formação, até exercer sua especialidade. São seis anos de faculdade, mais dois ou três de primeira especialidade (exemplo Clínica Médica ou Cirurgia Geral) e mais dois ou três de segunda especialidade (no meu caso, a Cirurgia Vascular). Além de outros cursos e pós-graduações em áreas de atuação. Portanto, para fazer aquilo que pretendemos, investimos muito tempo no desenvolvimento das nossas habilidades em prol de cada vez mais tratarmos melhor os nossos pacientes. A nossa profissão não nos permite sermos “medianos”.

Agora, você imagina quanto tempo é dedicado a ensinar o médico a cobrar pelos seus serviços, a gerir o seu consultório e a sua carreira? Nenhum ou muito pouco. A Medicina recebe um selo ingrato de “sacerdócio”, que transforma falar sobre dinheiro em pecado. Esse conceito é interessante para todas as fontes pagadoras. Um profissional extremamente capacitado, conceituado perante a sociedade, e que não sabe quanto vale o seu trabalho. Presa perfeita para o mercado.

Precisamos falar de dinheiro, de valores, de honorários, de organização financeira, de organização de tempo, de tudo o que tenha relação a gestão de carreira e de negócio. Sim, a Medicina e o consultório são “business”. Com todas as suas peculiaridades, mas são. E entender todos esses pontos, nos faz praticarmos a Medicina de uma forma mais profissional e melhor, com menos vícios de métricas como por exemplo “eu preciso atender mais” em vez de “eu preciso cobrar certo”, ou “eu tenho que atender a x pacientes em uma manhã” em vez de “eu preciso ter pacientes resolvidos/tratados”.

Quando em 2016 abri meu próprio consultório, reparei que eu era o CEO, o CFO, o CMO, o COO, e todos os outros “Chief Officers” possíveis! O médico de consultório privado na maioria das vezes trabalha somente ele mesmo com a sua secretária, às vezes com mais um colega ou outro. Enfim, são estruturas pequenas, com poucos envolvidos, mas com acúmulo de funções. Fazer a análise detalhada dos números e a criação de metas virou quase uma obsessão por dois motivos: melhor organização do tempo e menor perda financeira (como chamo, ralos). Até porque organização é igual a tempo, tempo é igual a dinheiro, e portanto organização é igual a dinheiro.

Começamos então a levantar o faturamento bruto, o número de atendimentos e o ticket médio, e a estabelecer metas equilibradas entre os três. Começamos também a fazer não só análises mensais, mas também semanais e trimestrais, para podermos diminuir deturpações que épocas de feriados longos poderiam criar. Exemplo: O trimestre Dezembro/Janeiro/Fevereiro engloba na maioria das vezes as festas de fim de ano e o carnaval. Analisar esses meses individualmente, na nossa realidade, criava números deturpados de acordo com a quantidade de dias úteis que eram eliminados com os feriados no período.

Outra medida foi estabelecer faixas de valores nas métricas e mantê-las equilibradas. Não servia, por exemplo, atendermos mais pacientes e o ticket médio cair, nem ter um ticket médio muito elevado, porém com uma receita bruta baixa. Fazendo essas análises, avaliamos o aumento do número de procedimentos e de exames ambulatoriais (inclusive direcionando a publicidade do consultório), avaliamos o aumento do valor da consulta, a criação de consultas bonificadas, e outras medidas. Nenhuma das medidas de investimento ou de valoração acontece hoje sem a avaliação prévia dos números. Não cabem “achismos” nesses momentos.

O ano de 2020 já havia começado com uma queda importante no número de atendimentos, mantendo o ticket médio, no trimestre Dezembro/Janeiro/Fevereiro em comparação a 2019, devido a mudanças locais na minha cidade. E a pandemia terminou de “quebrar a perna”… Este ano, a queda em comparação a 2019 está em 36% até o momento, o que sinceramente consideramos bastante razoável frente a gravidade da situação. A meta este ano era o aumento em 15% do faturamento motivado por aumento do ticket médio. Porém qualquer planejamento feito teve que ser readequado. O objetivo do ano passou a ser sairmos com saúde e mantermos o acolhimento aos nossos pacientes. Começamos, por exemplo, a Teleconsulta e o atendimento em horários diferenciados. O resultado-chave passou a ser fecharmos 2020 com a perda máxima em 33 a 35% em comparação a 2019.

Nas visões mais pragmáticas (até mesmo pessimistas), a recuperação da economia por completo acontecerá no período de cinco anos após o fim da pandemia. Levando-se em consideração a vacinação a partir do início de 2021 como Dia Zero, essa recuperação mundial aconteceria apenas ao fim de 2025. Porém, o certo é que quem estiver ciente de seus números, de suas estatísticas e cada vez mais próximo das necessidades de seus pacientes tenderá a se antecipar a essas previsões, independentemente do cenário e do tempo, e largará na frente.

Em termos de “business”, a pandemia pode ser encarada como uma oportunidade de se reavaliar o seu consultório e a sua carreira. Buscar formas novas de aproximação com os pacientes, buscar novas ferramentas de controle de sua produção, de cobranças e de recebimentos como a Medicinae oferece, buscar um novo posicionamento no mercado, todas essas medidas são válidas.

Respeite o seu perfil profissional, as suas características, o seu mercado, mas os conheça a fundo! E os números o ajudarão neste processo.

Estamos tendo tempo para repensar a Humanidade, portanto vamos começar por nós mesmos.

Sobre o autor:

Dr. Felipe Costa é formado na Souza Marques em 2003, com Residências Médicas em Cirurgia Geral e Cirurgia Vascular, titulo de Especialista em Cirurgia Vascular e em Área de Atuação em Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular pela SBACV/AMB. Consultório privado em Niterói/RJ. Cofounder da S4D – SERVICE For Doctors.

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